Silêncio.

•Setembro 11, 2009 • Deixe um comentário

- Foda-se.

- Foda-se você.

- Você é um grosso mesmo.

- Mas foi você quem começou.

- Bem que a minha mãe me dizia…

- Porra! Que merda. Será que você não consegue passar um dia sem lembrar de quando eu matei sua mãe?

Silêncio.

Amor de mãe

•Agosto 26, 2009 • Deixe um comentário

“Estas roupas são apenas um jeito dele expressar sua adolescência”. Parece que foi ontem quando ouvira estas palavras de sua mãe. As camisetas de banda, o cabelo comprido, a sombra nos olhos e as tatuagens pelo braço o faziam um adolescente como a maioria rebelde de sua época. Se soubesse que quando adulto iria se deparar com aquela situação feito beco sem saída não teria crescido daquela forma.

Tudo estava manchado. Sua camisa polo, o banco e os vidros do carro, seus óculos e sua carteira. Não tinha como dar outra desculpa, qualquer tolo perceberia facilmente que aquilo era sangue. Era hora de encarar os fatos: tinha uma mulher de 25 anos em seus braços, morta pelo seu próprio machado.

Seu nariz sangrava e a mente fervia: estava há pelo menos três dias cheirando. Já nem sabia mais quem era ou por que fizera aquilo. Só tinha a certeza de que não havia volta. Tanto para a mulher quanto para ele. Já era a terceira vez só naquele ano que fugia da clínica de reabilitação paga pela mesma mãe que, durante a adolescência, o defendia de tudo e todos.

Largou a mulher e olhou para o machado. Seu rosto estava contorcido e, com lágrimas nos olhos, decidiu fazer uma derradeira homenagem à única pessoa que o apoiou nos últimos 33 anos. Arrancou a mão esquerda com dificuldade e aproveitou o sangue que escorria de suas veias cortadas para escrever no matagal suas últimas palavras, que nunca foram decifradas.

B-29

•Julho 27, 2009 • Deixe um comentário

Os gritos abafados já não o assustavam mais. Há exatos seis anos vivia naquele porão. O cheiro de bolor e mofo se misturava com o maldito odor de pólvora que não o deixava esquecer que a guerra continuava. Tinha medo de perder o movimento das pernas. Há alguns anos não andava, apenas engatinhava de um lado para o outro, como criança. Era esse seu único passatempo.

Fora alguns soldados anti-semitas, que diariamente levavam um pouco das sobras de comida do exército, não via mais ninguém há tantos anos que sua mente já esquecera o rosto da maioria dos seres humanos. Mas não o de sua mulher.

Era um homem rico, mas liberdade exigia mais do que dinheiro. E sua propina só pode comprar uma liberdade. Portanto, fez o que seu coração mandou. Conseguiu subornar o alto escalão nazista para que não matassem sua amada, e o baixo escalão do exército para que o trouxessem as sobras diárias. E assim vivia nos últimos seis anos.

Não sabia qual guerra era mais perigosa: a sua própria ou a dos nazistas. A cada 5 minutos tinha uma nova idéia de como resolver aquela situação. De atitudes suicidas até negociação diplomática, tudo passava pela sua cabeça, dividindo espaço é claro com os bons momentos vividos ao lado da mulher que fazia seu coração bater mais forte.

“E pensar que anos antes era um homem destemido” – dizia a si mesmo. De que adianta a coragem a um homem que não leva desaforo para casa?! Bastavam poucos segundos em silêncio na frente dos soldados para que seus últimos 6 anos não fossem em um porão, mas seu orgulho e sua coragem o trairam no momento talvez mais importante da sua vida.

E voltava a riscar a madeira velha do porão em mais um plano maquiavélico de fuga, enquanto torcia para os yankees vencerem a guerra.

Trinta primaveras

•Julho 23, 2009 • Deixe um comentário

Só precisava de mais um copo para encerrar minha noite de devaneios.

“Para que beber tanto?!” indagava o barman, vendo minha fisionomia desacreditada. Já passava das cinco da madrugada e junto do faxineiro e do próprio barman, lá estava eu. Sóbrio e ao mesmo tempo bêbado. Parecia não haver álcool o suficiente que me fizesse esquecer os quase trinta anos de fracasso. Por mais que tentasse lembrar, nada louvável vinha em mente. Não fui o que meus pais sempre sonhavam, não fui o que eu sempre sonhava. Chegava a trinta primaveras sem nenhuma flor memorável.

Com um copo na mão, encostado no balcão daquele bar de classe média, onde encontravam-se apenas motoqueiros com espírito aventureiro e pessoas iguais a mim, que apenas faziam parte da estatística brasileira, refleti sobre a insignificância da vida e cogitei, confesso, se o suicídio não seria a solução mais adequada.

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Foi quando ele entrou.

Senti que havia algo de diferente no ar. Bem perfumado e com os cabelos asseados, não parecia fazer parte daquele submundo. Seus sapatos brilhavam. A gravata perfeitamente arrumada denunciava seu perfeccionismo. Meu corpo gélido tremeu, quando parou ao meu lado. Se uma parte de mim estava bêbada, e a outra lutava para também ficar, ambas ficaram sóbrias instantaneamente.

- Uma água sem gás, por favor.

Sua voz era grave como o barulho das ondas. O barmam, meu amigo de longa data, lhe serviu uma minágua sem dizer palavra. Então, ele virou-se para mim e disse, como se me conhecesse há muito tempo: Porque ainda está aqui? Você sabe do seu potencial.

Estranhamente, parei de tremer. Senti-me como se conversasse com um amigo de infância, talvez fosse a bebida fazendo efeito novamente: “Estou cansado disso tudo… preciso de um recomeço… de um sentido para continuar.”

Ele tomou um grande gole d’água e disse algumas palavras que pareciam ter saído de mim mesmo: “Foi isso que vim fazer. Ande, venha Comigo.”

Como se fosse a coisa mais natural do mundo, apenas retruquei se ele não queria uma bebida antes de sair. Lembro d’ele ter dito que não bebia. É tudo que me lembro.

Dois dias depois, com uma estranha tatuagem escrita “môj” no pulso, fui encontrado ensangüentado, com quatro ossos quebrados, um olho amputado e apenas dois dedos em cada pé. O dedão e o mindinho.

O legista disse que isso não pode ter sido feito por apenas um homem, ninguém teria tamanha força ou crueldade.

Isso aconteceu há aproximadamente 17 anos. Hoje, sou casado, tenho dois filhos lindos e uma mulher que me ama. Estranhamente, sinto-me grato àquele homem, que nunca mais vi. Mas que me fez seu e mudou minha vida por definitivo. Para melhor, diga-se.

Vício

•Julho 23, 2009 • Deixe um comentário

Era tarde da noite. Como em qualquer outra, ela fumava o último cigarro de seu maço diário naquele bar, tomando um contini quente. Seu pensamento estava longe. Pensava na morte, que estava perto. Diagnosticada com tumor no pulmão, achava que morreria logo, mas não tinha certeza. Sem convênio, sua consulta fora marcada para o fim do ano que vem. No SUS. “O SUS não é tão ruim assim”, tentava se animar. Ela que sempre se auto-intitulou pessimista, porque pessimista ganha até quando perde, tentava encontrar um motivo para acordar na manhã seguinte. Só que não tinha mais essa habilidade.

Olhou para o lado e viu àquela típica cena de boteco da Augusta às quatro da manhã. Homens com o nariz branco jogando sinuca e tomando cerveja. Meninos com cabelos minuciosamente bagunçados e tênis que aparentavam ser emprestados de funcionários da NASA, negociando o valor de alguma coisa com uma mulher com seus 35 anos.

Era essa sua alegria. Se comparar com quem julgava pior e sair feliz, pensando que sua vida até que era legal. Mas a ficha caiu. Agora estava pior. Sem motivo nenhum para acordar no outro dia, lembrou do que havia aprendido no cursinho sobre como ter uma boa ideia. Parou, respirou, olhou em volta, jogou a bituca do cigarro fora e Eureca!: “Tenho que comprar meu maço diário.”

Showtime!

•Julho 22, 2009 • 1 Comentário

Havia alguma coisa diferente nos seus olhos. Era perceptível há quilômetros de distância. Corrigir: palavra que não saía de sua cabeça enquanto olhava os carros passando pelo 13º andar. Corrigir postura, corrigir suas vestes, corrigir seu jeito de tratar as pessoas. E acima de tudo, corrigir sua vida. Ter visto por alguns segundos o que poderia se tornar caso corrigisse seus erros foi o que o motivou.

Por longos meses viu sua vida passar em preto e branco, como em um filme de época. Reclamava de tudo: do cachorro no meio do caminho, da camisa amassada, do senhor de idade sem habilidade do volante, da moça bonita que andava pela rua, do seu trabalho de segunda à sexta. No fundo sabia que nada mudaria se ele continuasse apenas a olhar a paisagem.

“Ficar sentado é que não vou fazer.” – Pensava agora. E aquela palavra transformada em energia para suas idéias e ações iam, pouco a pouco, mudando a sua vida, fazendo-o entrar de volta na rota que o levará ao que planejava anos atrás.

A revolução era necessária. Era hora de agir. Era hora do show.